segunda-feira, 22 de junho de 2009

Peru – Huaraz – Nevado Pisco

Depois de mais uma efémera passagem por Lima estávamos na Cordilheira Branca. Esta prometia ser a nossa maior aventura no Peru assim como o maior rombo na carteira (250 USD por pessoa). No terminal onde esperávamos pelo nosso Guia Lucho só se via gente com material de escalada e alpinismo. Como tínhamos enviado um email antes a confirmar a hora da nossa chegada como combinado, esperámos por quem nos viesse buscar. Depois de muita espera tentámos ligar para o telemóvel do Lucho mas não dava qualquer sinal. O Nuno foi a um botequim de internet para ver se tinha alguma resposta … mas nada… como nos lembrávamos que iríamos ficar no Hotel Galáxia com quem o Lucho trabalhava, ao vermos na internet o número de telefone, tentámos a nossa sorte.

A não ser o pequeno percalço com o “paro” entre Cusco e Puno estava tudo a correr de acordo com o nosso planeamento mas, à segunda chamada para o Hotel fomos informados que o Lucho estava na montanha voltando apenas no dia que tínhamos previsto para a saída de Huaraz. Já no Hotel e olhando para o quadro com planeamento dos guias não constava lá o nosso nome, perguntaram-nos quando teríamos disponibilidade para a subida ao Nevado Pisco. Quando referimos que tínhamos tudo combinado com o Lucho e que por isso já tínhamos os dias todos preenchidos ficámos todos apreensivos.

Entretanto fomos posar as mochilas no quarto e tomar um necessário banho. Enquanto nos lamentávamos já nos batiam à porta a dizer que tinham arranjado novo guia e que este estaria a chegar para nos dar umas noções básicas para andar na neve. Por sinal era Marco o irmão mais velho do Lucho, supostamente reformado destas andanças mas que lá nos fez o “favor” de remediar os erros do benjamim da família. Com isto proporcionou-se uma enorme coincidência: o único português com quem tínhamos estado no Peru, quando estávamos em Machu Picchu, disse-nos que tinha subido o Nevado Pisco. Ele perguntou-nos com quem íamos aconselhando que deveríamos ter cuidado e escolher empresas qualificadas. Não sabíamos o nome da nossa empresa mas quando referimos Lucho e Hotel Galaxia ele disse que tinha ido com o irmão Marco. Depois de tantas voltas calhou-nos o mesmo.

Feitas as apresentações começou a aulinha: o que levar, o que tínhamos, o que precisávamos, o que nos forneciam, como utilizar o equipamento etc… Para ver a nossa capacidade física e de habituação à altitude fomos fazer uma caminhada, da qual resultaram aparentemente muito boas indicações.

Depois da caminhada almoçámos e fomos procurar o que não tínhamos, nomeadamente “pantelones” (ceroulas de lã) e churros (gorros para a neve). Gorros havia por todo o lado agora as ceroulas foram difíceis de encontrar, conseguindo-se apenas junto da banca de uma senhora idosa.

No dia seguinte acordámos, esperámos e desesperámos pelo Marco e na presença deste preparámos as mochilas de cada um fazendo uma última “check list”. Seguimos de táxi para um terminal de combis, e entrámos numa. Embora parecesse cheia cabia sempre mais uma pessoa, atingindo-se o máximo de 26 pessoas numa carrinha de 9 ou 12 lugares. Na última paragem o Marco negociou novo táxi para nos levar ao início da caminhada. Pelo caminho parámos para comprar o bilhete do parque nacional de Huascaran (S/. 65.00) e dar boleia a duas raparigas todas excitadas com o taxista.

Fomos alugar dois transportadores (um cavalo e um burro) e seguimos para uma caminhada até ao acampamento base no sopé da montanha. No início da caminhada íamos atrás dos animais o que não foi muito agradável pois o cavalo não se devia estar a sentir muito bem com a altura fazendo uma descompressão sonora e ritmada a apenas 1 metro do Nuno. Depois de conseguirmos passar as bestas chegámos ao acampamento onde montámos as tendas e esperámos que o nosso cozinheiro Marco nos fizesse uma massa com frango. O Marco parecia ter comprado comida para um batalhão ou para passarmos uma semana na montanha. Enquanto descansávamos um pouco na tenda vimos mais uma vez uma vizcacha (Lagidium Peruanum). Do acampamento podia-se ver algumas montanhas entre as quais o Nevado Pisco (5752m) e o imponente Huascaran, ponto mais alto do Peru com 6768m.

Tivemos de ir dormir cedo pois à 1:00 devíamos estar a começar a andar. Tínhamos pela nossa frente 4 a 5 horas de subida em rocha e depois mais 3 a 4 horas de subida na neve. Quando acordámos estava a nevar mas tínhamos esperança que com o passar do tempo as condições melhorassem. Começámos à 1:30 conjuntamente com mais dois ou três grupos. Ao fim de pouco tempo as velhinhas botas da Mónica estorvavam mais do que ajudavam: Como a sola estava solta ela amarou os cordões por baixo do sapato que, pelo facto de estarem húmidos, juntavam muita neve, o que dificultava imenso o andar. Junto do Glaciar a Mónica ponderava em desistir mas depois de calçar as botas de neve o os grampões e andar um pouco ganhou novamente confiança. Infelizmente o tempo não acalmou, continuava a nevar e o nevoeiro não nos deixava ver mais do que 2 ou 3 metros. Ainda assim continuámos, fomos subindo pela neve , com mais ou menos dificuldade, com, ou não, recurso às cordas e ao piollet, atravessámos uma fenda no gelo e tirámos algumas fotos. Ficámos a uns meros 150 metros do cume mas como não se via nada foi mais prudente não avançar mais.

[13.034]_Escalada_Nevado_Pisco_Base_Glaciar_Mónica_Nuno_e_Marco          [13.037]_Escalada_Nevado_Pisco_Base_Glaciar
Nós e o nosso Guia Marco                                                                       Nevado Pisco          

Voltámos para baixo e com o acalmar do tempo e a luz do dia podemos observar a extensão de rocha que tínhamos percorrido durante a noite assim como o que havia para ver nas redondezas.

[13.040]_Escalada_Nevado_Pisco_Descida_Acampamento_Base_Lagoa           [13.042]_Escalada_Nevado_Pisco_Descida_Acampamento_Base
                     Lagoa                                                                      Descida até ao acampamento base

Quando chegámos ao acampamento e pensávamos descansar tivemos de andar a limpar a nossa tenda pois estava completamente encharcada mesmo pelo interior. Aproveitámos o resto do dia para descansar e confraternizar com os nossos vizinhos. A noite custou muito a passar para a Mónica devido ao muito frio que se fazia sentir, tanto frio que até o Nuno dormiu de pantelones.

[13.053]_Acampamento_Base_Tenda_Huascaran_6768m           [13.055]_Acampamento_Base_Nevado_Pisco
Acampamento base: Huascaran                                                   Acampamento base: Nevado Pisco

No dia seguinte o céu estava completamente limpo, se tivéssemos programado as coisas um dia depois teríamos visto tudo de lá de cima mas… foi a sorte que nos calhou. Acordámos cedo para arrumar as coisas e esperar que chegassem os nossos “burros de carga” (literalmente) enquanto as tendas secavam. Quando chegaram, descemos até ao “rent a burro” onde supostamente estaria à nossa espera o táxi, o que não aconteceu. Ainda esperámos mais de uma hora, inclusivamente jogando futebol com 2 miúdos até ficarmos sem ar (uns 10minutos depois). Ficámos a perceber como é que a selecção de futebol da Bolívia ganhou 6 a 1 à Argentina na qualificação para o mundial – escusado será dizer que também perdemos mas apenas por 2-1.

Desistimos de esperar, apanhámos outro transporte, uma carrinha de 9 lugares que vinha buscar outros estrangeiros. Como estes quase não falavam nem percebiam castelhano o nosso guia e o motorista arranjaram forma deles pagarem muito mais que nós pela viagem.

Em Huaraz pedimos para tomarmos banho no hotel uma vez que já tínhamos dado saída, pedido concedido a troco de alguns soles. Antes de sairmos do hotel conhecemos finalmente o Lucho que tinha acabado de chegar da montanha. Descansámos um pouco e depois de aceites as desculpas pelo sucedido, seguimos para o terminal de autocarros partindo para Trujillo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Peru - Lima

Pela segunda vez em Lima e novamente de passagem. Chegados de Nasca tínhamos como objectivo visitar o máximo em menos tempo e gastando o mínimo possível. Depois de muitas voltas para encontrar lugares de bus a bom preço para Huaraz, chegámos a Miraflores, talvez a capital da capital do Peru. Parecia estarmos num país totalmente diferente, edifícios em altura, shoppings, supermercados, colégios, universidades, enormes casas de construção colonial, grandes avenidas e praças arranjadas.

Passeamos um bocado pela Plaza Kennedy Avenida Arequipa e arredores mas estávamos mais interessados em visitar as Huacas.

A palavra Huaca significa templo e está associada a construções de forma piramidal erguidas com muitos milhares de pequenos tijolos de adobe sobrepostos. São características das culturas costeiras do centro e norte do Peru tendo sido descobertas dezenas, muitas delas violadas pelos saqueadores ou por pessoas cuja ganância de construir por cima se sobrepôs a tudo. A erosão torna-as quase imperceptíveis parecendo montes de areia por isso devem existir ainda muitas por descobrir. Muitas ainda, estão à espera de fundos para se poderem efectuar as escavações, manutenção e divulgação.

Fomos a pé até à Huaca Pucllana – Templo dos Adoradores da Lua (a 25min da Plaza Kennedy) onde vimos pela primeira vez El Perro Peruaño, o cão pelado peruano. Ao princípio pareciam ter todos receio dos animais pois a falta de pelo poderia indicar alguma doença de pele, mas depois da nossa guia explicar do que se tratava, todos já faziam festas. O cão peruano apresenta uma característica única que tem a ver com a sua temperatura corporal que se apresenta sempre acima dos 40ºC, sendo por vezes utilizado como botija de água quente.

Ao contrario do que nos diziam os guias de viagem a entrada não é gratuita sendo cobrados S/. 7.00.

Por azar calhou-nos a visita em inglês, mas com algumas perguntas à guia conseguiu-se perceber o essencial.

Estima-se que o complexo arquitectónico da Huaca Pucllana e envolvente tivesse um desenvolvimento total de 18 ha resumindo-se actualmente a pouco mais que a área de implantação do templo devido à urbanização circundante.

Na Huaca existe um mini jardim zoológico com animais tipicamente peruanos como os Porquinhos da Índia ou Cuy (Cavia Porcellus) e as Lamas (Lama Glama).

A meio da visita presenciámos um rito animal de sobrevivência fantástico: Dual rolhas de colar (Zenaida Auriculata) desviavam do seu ninho a atenção de um falcão (Falco Peregrinus), simulando estar feridas, cambaleando e arrastando uma asa pelo chão. Quando este as tentava atacar por se tratarem de indivíduos indefesos… fugiam.

No final da visita pudemos observar uma representação de um estaleiro típico de uma Huaca, com as cenas das diversas fases do fabrico dos blocos de adobe e, junto à saída, uma sala com artefactos descobertos na Huaca e respectiva contextualização histórica.

[12.012]_Huaca_Pucllana_Pormenor_Construtivo [12.014]_Huaca_Pucllana [12.018]_Huaca_Pucllana 
                 Tijolos de Adobe                                                                          Huaca Pucllana

Dirigimo-nos novamente a pé à Huaca Hualamarca, (S/. 5.00) acabando por ser uma caminhada bastante longa (1H00) pois tentámos andar pelas avenidas principais de forma a minimizar os riscos de infortúnio. Huallamarca significa residência do povo Hualla. À chegada fomos recebidos novamente pelos afáveis canitos peruanos. No interior do recinto existe um pequeno museu dedicado ao Professor Jimenez Borja, médico de profissão mas conhecido como um dos maiores historiadores no Peru. A ele é atribuída a descoberta, escavação, recuperação e abertura ao público de muitas Huacas. Noutra sala é feita uma descrição histórica das culturas peruanas sem apresentados alguns artefactos retirados da Huaca e uma múmia. A visita à Huaca resume-se a uma subida pela rampa até ao topo, de onde se podem ver algumas tumbas e celas onde preparavam os guerreiros derrotados de um combate para o seu sacrifício, e uma volta em torno da base.

[12.043]_Huaca_Huallamarca_Múmia [12.040]_Huaca_Huallamarca[12.054]_Huaca_Huallamarca
Múmia                                      Huaca Hualamarca                                                       

No fim ainda tentámos ir até ao Museu Rafael Larco Herrero mas ao fim de mais de duas horas a pé por ruas de aspecto muito duvidoso ainda estávamos bastante longe. Ainda andámos um bocado com escolta policial mas o próprio parecia estar mais preocupado que nós. Decidimos almoçar qualquer coisa pois já passava das 16, perdemos a cabeça e dirigimo-nos para o restaurante de luxo McDonald’s onde comemos por 1/3 do preço do que se paga cá.

Lá fomos regatear o táxi mas aparentemente estávamos a pedir um preço tão baixo que todos arrancavam chateados. Desta vez saiu-nos na rifa um jovem acelera apreciador de Heavy Metal a altos berros que, além de buzinar em todos os semáforos, cruzamentos e entroncamentos, buzinava ao ritmo da música. Escusado será dizer que o nosso sentimento era de medo… muito medo, sempre que ele fazia uma curva a Mónica olhava para o mapa a confirmar se estávamos bem, o que nem sempre parecia estar a acontecer mas lá chegámos.

Partimos rumo à nossa maior aventura no Peru na cordilheira branca.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Peru – Nasca – Linhas Nasca

Nasca é conhecida pelas seus geoglifos traçados no deserto entre os séculos 5 antes e depois de Cristo. As linhas Nasca estão ainda hoje envoltas em muito mistério… não se sabendo muito bem a sua utilidade e de como terão sido feitas, uma vez que não existe nas proximidades nenhuma elevação natural suficientemente elevada para que seja possível a visualização das figuras. Estas foram passando despercebidas no tempo não tendo sido dada a relevância merecida, de tal modo que a estrada panamericana atravessa algumas.

Embora não pareçam, as finas linhas que se vêem nas fotos, apresentam uma profundidade de 50cm e 1m de largura.

Do pouco que se sabe descobriu-se que o emaranhado de linhas actual corresponde a várias fases distintas de expressão artística, havendo linhas, figuras geométricas e figuras de animais e plantas. Muitas das representações de animais e plantas encontram-se parcialmente “apagadas” por figuras geométricas que correspondem a um movimento mais recente, pensando-se que muitas mais terão sido totalmente sobrepostas.

Vindos de Arequipa chegámos a Nasca pelas 5:50 da manhã onde esperámos pelo Sr. Luís que nos levaria ao aeródromo. Como era muito cedo o Sr. Luis levou-nos a uma hospedagem para descansarmos um pouco até às 8:00. À hora marcada chegou a carrinha para nos vir buscar e lá fomos parando em diversos hotéis e residenciais, juntando mulheres que enjoam a andar de carro até encher a carrinha.

Chegados ao aeródromo com o nome da historiadora mais conhecida das linhas Nasca, Maria Reiche, lá nos chegou a boa notícia de que, além do muito que já tínhamos pago pela viagem de avioneta (85 USD pelos 2), ainda existia mais uma taxa que nos faria levar as mãos ao bolso (S/. 20.00).

A gare estava cheia, tinha o reboliço de um aeroporto normal apesar de ser bastante pequena. Chegava gente, agrupavam o pessoal de acordo com os lugares de cada avioneta e depois corria-se para a mesma antes que passasse o tempo mínimo para a descolagem autorizado pelo controlador aéreo, senão teríamos de esperar pela hora seguinte.

O nosso CESSNA Skywagon transportava apenas 6 pessoas incluindo o piloto. Iam 1 peruano e 1 espanhol à frente, 2 franceses a meio e 2 portugueses atrás (sempre na cauda do mundo). Quer na gare quer no avião o piloto, fez por mostrar que as gorjetas seriam bem-vindas.

[11.051]_Cessna_Skywagon-185_OB-1808 [11.033]_Sobrevoo_Linhas_Nazca
              Cessna_Skywagon-185_OB-1808                                                 Sobrevoo de Nasca                       

Lá descolámos para uma viagem de uma hora que não pareceu ter durado mais de 15 minutos. São impressionantes as figuras criadas no terreno, o detalhe de algumas, a dimensão e principalmente o facto de muitas terem sido feitas de uma única linha contínua. Entre as muitas figuras existentes apenas visitámos 11 das mais conhecidas (La Ballena, El Astronauta, El Mono, El Perro, El Condor, La Araña, El colibri, El Alcatraz, El Loro, Las Manos e La Arbol)

  [11.018]_Sobrevoo_Linhas_Nazca_El_Mono [11.023]_Sobrevoo_Linhas_Nazca_El_Condor [11.027]_Sobrevoo_Linhas_Nazca_Aranha
                         El Mono                                                   El Condor                                                    La Araña

Embora sejam as mais conhecidas, as linhas Nasca não são as únicas da zona. Existem as linhas Palpa com muitas formas antropomorfas, também visitáveis via aérea, que só descobrimos a sua existência na gare, nos anúncios das várias empresas turísticas.

 [11.028]_Sobrevoo_Linhas_Nazca_Triangulos [11.029]_Sobrevoo_Linhas_Nazca_Colibri
                         Formas Geométricas                                        El Colibri       

terça-feira, 16 de junho de 2009

Peru – Arequipa – Tour Cañon del Colca

De volta a Arequipa, tínhamos como objectivo visitar o segundo desfiladeiro mais profundo do mundo o Cañon del Colca com 3450 metros de profundidade e 100km de extensão. Note-se que o mais profundo o Cañon Cotawasy com mais 150m é vizinho deste não ficando muito longe, apenas a 7 horas de carro por estradas muito más. Dos 32 diferentes climas identificados no mundo, o Peru tem 28, 10 dois quais no Cañon del Colca.

Chegámos a Arequipa já depois das 23:00 e ainda tínhamos de arranjar onde pernoitar e, se possível marcar um tour para o dia seguinte partir logo de manhã. Depois do táxi nos deixar na Plaza de Armas pedimos ajuda a um polícia para nos levar a um Hostel Barato. Já mais descansados e com lugar para passar a noite perguntámos ao recepcionista se faziam Tours de 2 dias ao Cañon del Colca (nem era preciso perguntar, não deve haver ninguém que não trate disse no peru). Combinámos logo tudo (24 dólares p/ pessoa + S/. 35.00 do boleto turístico + refeições), seria preciso acordar bem cedo no dia seguinte para comprar mantimentos antes de avançar no tour.

PDF_006_1 Boleto Turístico

No dia seguinte juntámo-nos ao guia Wilson, condutor Augusto e aos restantes visitantes inscritos com quem iríamos conviver durante 2 dias. Haviam espanhóis, italianos, franceses, peruanos, americanos e portugueses. Partimos rumo ao ponto mais alto da terra por nós pisado até então, Patapampa com 4910 metros. Pelo caminho parámos várias vezes para nos habituarmos à altitude, tomando matte de coca em Vizcachani, e para observarmos alguns pontos de interesse como a Reserva Pampas Cañahuas, onde vimos vicuñas (Vicugna Vicugna) em estado selvagem, nas restantes pampas para observarmos Patos de Bico Azul (Anas Puna), Galinholas Gigantes (Fulica Gigantea). No miradouro de Patapampa tínhamos vista privilegiada para os imponentes vulcões que guardam Arequipa: Chachani (6075m), El Misti (5825m), Hualca Hualca (6025m), Ampato (6288m) onde foi encontrada a famosa múmia Juanita), Sabancayo (5976m) e El Mismi (5597m), nascente do rio Amazonas. No miradouro viam-se muitos conjuntos de pedras empilhas fazendo colunas verticais, denominadas de Apachetas, normalmente colocadas nos lugares elevados, locais mercantis, mas também com conotação espiritual. Tivemos a agradável surpresa de encontrar uma fugidia e tímida vizcacha (Lagidium Peruanum), parente próxima das chinchilas, a apanhar sol nas rochas.

[10.002]_Reserva_Pampas_Cañahuas_El_Misti_e_Vicuñas [10.022]_Patapampa_Misti_5825m_e_Chachani_6075m [10.025]_Patapampa_Ampato_6288m,_Sabancayo_5976m_e_Hualca_Hualca_6025m
           Reserva Pampas Cañahuas                     Patapampa: Misti e Chachani     Patapampa: Ampato, Sabancayo e Hualca Hualca

Descemos até à cidade de Chivay onde iríamos pernoitar, para deixar as malas e almoçar para depois fazer um pequeno trilho. Neste percurso pudemos observar de uma ponte as colcas (que dão nome ao desfiladeiro) que são pequenos armazéns construídos em barro nas encostas do desfiladeiro para conservação da comida.

[10.043]_Cañon_del_Colca_Andeneria_de_Oqolle
Cañon del Colca

No dia seguinte partimos cedo para chegar ao ponto mais emocionante do tour: o miradouro Cruz del Condor onde observaríamos de perto o voo deste imponente animal com aproximadamente 3 metros de envergadura e 15kg de peso. Os condores (Vultur Gryphus) podem viver até aos 65 anos em liberdade

A caminho do miradouro passámos por litomaquetas que os pré-Incas faziam na rocha antes de iniciar a transformação das montanhas, e pela indicação de um geiser que embora tivéssemos pedido para lá ir disseram que era impossível pois ficava a mais de 4 horas apesar de estar a apenas 9km.

No miradouro todos se amontoavam para conseguir o melhor spot para ver os condores no desfiladeiro. Viam-se muitos lá no fundo, mas pareciam reticentes a subir. Apesar dos avisos para não se fazer barulho um grupo de jovens irritante não se calava. Finalmente um “pequeno” condor foi subindo até que atreveu a passar por nós a menos de 2 metros. Infelizmente tratava-se apenas de um jovem castanho sem coloração negra dos adultos.

[10.071]_El_Condor_(Vultur_Gryphus) [10.083]_El_Condor_(Vultur_Gryphus)
El Condor: Adulto (esq.) Juvenil (dir.)

Tivemos de regressar aproveitando para fazer um pequeno passeio a pé passando por outro miradouro até ao bus. Pelo caminho fomos atacados por uns insectos enormes com um espigão de 2 ou 3 cm. Vimos também periquitos e colibris. No miradouro podia-se ver que nessa altura estavam perto de 10 condores na Cruz del Condor.

No regresso a Arequipa parámos ainda no miradouro Wayra Punku (porta do vento), em Maca para visitar a igreja local e tirar umas fotos com uma águia andina e em Chivay onde almoçámos. Em Arequipa demos uma pequena volta e fomos para o “terrapuerto” comprar bilhete para Nasca.

  [10.103]_Moscardo_Tabanidae(1) [10.111]_Cañon_del_Colca [10.115]_Maca_Aguia_Andina_(Buteo_Melanoleucus)
                       A mosca assassina                                                    Cañon del Colca                                     Águia Andina

domingo, 14 de junho de 2009

Peru – Puno – Lago Titicaca

Depois de uma viagem muito atribulada de autocarro chegámos finalmente, mas atrasados, a Puno. Tínhamos pago 30USD cada um tour de 2 dias no Lago Titicaca, com visitas às ilhas Uros, Amantani e Taquille, com tudo incluído. Devido ao nosso atraso de quase 2 horas relativamente ao início do tour quase nem parámos nas primeiras. O nosso tour tinha como guia o senhor Augusto, que embora local, parecia estar muito mais afectado com a altura do que nós pois comia metade das palavras das frases e inspirava profundamente a cada 2 ou 3 palavras. Sentimos alguma pena por todos aqueles que não entendiam castelhano, pois o inglês, além de ser muito mau, era tratado do mesmo modo.

Após uma viagem de 2 horas de barco chegámos a Uros. Para se poder entrar no “recinto” é necessária autorização da torre do controlo, uma torre flutuante com alguns locais empoleirados. No barco iam 8 de vários Tours que tinham sofrido das mesmas dificuldades em chegar a Puno.

As ilhas Uros são plataformas flutuantes construídas em junco. Demoram 1 ano a construir e duram perto de 10 desde que se façam trabalhos de manutenção mensais. Sob a ilha são construídas casas, celeiros, recintos de animais e tudo o que for necessário à subsistências da família que mora lá. Actualmente, e devido à actividade turística, cada ilha apresenta uma estrutura singular diferente de todas as outras como se se tratasse de uma imagem de marca.

De modo a distribuírem-se os lucros das visitas de turistas, cada grupo dirige-se a uma ilha diferente. Calhou-nos primeiro a ilha Suchi Maya que serviu como transbordo para nos juntarmos ao resto do grupo e deixar gente pertencente a outro grupo. Desta saímos numa totora (barco de junco) até outra ilha onde seria suposto, caso tivéssemos chegado a tempo, passar algumas horas. À saída fomos brindados com uma canção típica, cantada em Quechua e depois em castelhano. Infelizmente o nosso guia não quis que as senhoras se ficassem por esta música e quase as obrigou a cantarem em inglês (Roll, roll, roll your boat) e francês (Frère Jacques). Este foi um momento deprimente, notava-se na cara das pessoas que iam no barco que estavam um pouco incomodadas com a situação. As totoras demoram aproximadamente um mês a serem construidas por 7 pessoas a tempo inteiro navegando em média apenas um ano.

[09.014]_Lago_Titicaca_Uros [09.025]_Lago_Titicaca_Uros_Suchi_Maya [09.027]_Lago_Titicaca_Totora´
Ilhas Uros                                     Senhoras de Suchi Maya                                         Totoras

Fomos até uma ilha muito engraçada cuja construção singular era um pequeno lago com uma minúscula ilha onde estavam porquinhos da índia e coelhos. Nesta obtivemos informações relativamente às ilhas, sua construção e manutenção assim como o que acontece quando há querelas entre familiares ou alguém decide separar-se da família – basicamente corta-se a ilha com o serrote, levanta-se a ancora e cada lado segue caminhos separados.  Salientamos o facto de que nestas ilhas o Quechua ainda ser falado assim como o Aymara, anteriormente disperso pelo Peru mas agora circunscrito a esta pequena população de 1000 habitantes.

Partimos em mais três horas de viagem até à maior ilha peruana do Titicaca, capital de distrito e local onde iríamos pernoitar. Apesar de ser capital de distrito, Amantani é muito pobre e apenas alguns dos seus 5000 habitantes tem electricidade pois conseguiram pagar a instalação de painéis solares. Não terá sido sempre assim, antes havia electricidade mas a pobreza era tanta que não foi possível pagar o combustível do gerador.

Na ilha já estavam a nossa espera, mal chegámos fizemos a distribuição de 2 a 3 pessoas por habitação e seguimos para casa dos nossos anfitriões. Foi uma imagem engraçada, uma fila de turistas pelo monte acima acompanhados de várias peruanas, que depois divergiam por quelhos diferentes cada um para sua casa. Calhou-nos uma família muito pobre mas muito simpática. Fomos recebidos pela Agustina, uma rapariga da nossa idade mas notava-se exteriormente já com muitos anos de trabalho. Ela é a mais nova de uma família de 6 irmãs que entretanto foram casando e saindo de casa, vivendo agora sozinha com o pai Ricardo, depois da morte da mãe. A casa tinha um anexo com duas camas onde dormem normalmente os turistas

Quando chegámos o almoço/lanche estava quase pronto. Comemos sopa de quinoa e queijo frito, batatas, arroz e oca.

[09.034]_Lago_Titicaca_Amantani [09.037]_Portão_Amantani
                                       Amantani                                          Portão de entrada em Amantani

Depois do almoço reunimo-nos no campo de futebol para subirmos a um dos pontos mais altos da ilha com 4140m, o monte Pacha Tata (Pai terra). Após uma apresentação do local o guia disse que poderíamos voltar para a aldeia ou ir até ao outro monte o Pacha Mama (Mãe terra) com 4190m,  mas que teria de ser rápido pois não tardava em anoitecer. Acabámos por ser os únicos do nosso grupo que se aventuraram a ir até ao ponto mais alto da ilha. Pelo caminho passámos por muitos turistas fazendo o caminho contrário – em Amantani os turistas são distribuídos pelas aldeias assim como nas ilhas Uros. As vistas eram fantásticas e o pôr-do-sol também. Ficou rapidamente muito escuro de tal modo que não foi muito fácil voltar ao campo de futebol mesmo com lanternas. À nossa espera e com ar de chateados esperavam alguns aldeões, um dos quais o pai da Agustina, que entre Quechua e castelhano nos disse que estávamos atrasados para o jantar. Fomos então para casa jantar, desta vez sopa de cevada e um estufado de legumes . De barriga cheia fomo-nos preparar para uma demonstração de convívio local, vestindo os trajes típicos. Ouve música, ouve dança… foi divertido mas acabou cedo pois tínhamos de acordar cedo no dia seguinte.

[09.041]_Amantani_Vista_Sobre_Taquile [09.054]_Amantani [09.056]_Amantani_Vista_Sobre_Titicaca
Taquille visto de Pacha Tata em Amantani            Caminho para Pacha Mama                Vista sobre o Titicaca de Pacha Mama

[09.072]_Amantani_Serão_típico
Os falsos peruanos

No dia seguinte foi-nos dado o pequeno almoço e antes da despedida comprámos um gorro feito pela Agustina e ainda lhe oferecemos a lanterna de dínamo da Mónica pois eles quase não tem acesso a pilhas para as suas.

Seguimos assim de barco para Taquille, a segunda maior ilha, agora muito mais desenvolvida que Amantani, inclusivamente apresentando Plaza de Armas restaurantes mercado comercial etc… Em Taquille vivem 3500 pessoas. Antigamente o tour que nós fizemos era feito exactamente ao contrário, pernoitando as pessoas em casas particulares em Taquille e visitando Amantani no dia seguinte, mas como Taquille se tornou muito cara inverteu-se a situação.

Nesta ilha é fácil distinguir-se pela indumentária o estado civil dos habitantes, bem como a sua posição hierárquica. Os gorros dos homens e a capa das mulheres apresentam diferenças que evidenciam estas características. À semelhança do que se passa em Amantani não existe polícia em Taquille, sendo as leis aplicadas e a justiça aplicada por intermédio das autoridades locais.

[09.089]_Chegada_a_Taquile[09.093]_Taquile_Igreja_Plaza_de_Armas
                                Chegada a Taquille                                  Plaza de Armas em Taquile

Saímos do barco, fizemos uma subida desgastante até à vila principal, almoçámos truta e descemos pelo lado oposto onde estava o Barco à nossa espera. Entramos no barco e regressámos a Puno onde não tínhamos a certeza se visitaríamos a cidade ou iríamos logo para Arequipa. Preferimos a segunda hipótese tendo assim mais tempo para o Cañon del Colca. Assim sendo, chegando a Puno fomos logo para o terminal comprar bilhete.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Peru – Cusco – Maras, Moray e Chinchero

Regressados do LUGAR e com um dia aparentemente livre no nosso planeamento apertado procurámos pontos de interesse que ficassem entre Ollantaytambo e Cusco para aproveitarmos o regresso à cidade dos Incas. Antes de procurar em qualquer um dos guia olhámos para o boleto turística para ver quais os pontos a que este nos dava acesso. Já sabíamos que Chinchero ficava a caminho pois quem não abandonou o Tour do Vale Sagrado seguiu para Cusco passando por lá, Outro local era Moray cuja fotografia do boleto era mais que apelativa. Em conversa com a Yeannet que nos queria tratar do tour à força toda, descobrimos a existência das Salinas de Maras que normalmente estão englobadas no percurso. Depois de não nos mostrarmos muito interessados com o preço proposto a Yeannet foi baixando até que aceitámos S/. 140.00 (mas só depois de consultar outros locais, inclusivamente em Ollantaytambo). Quando regressássemos de Águas Calientes estaria um táxi à nossa espera para nos levar até Cusco passando por Maras, Moray e Chinchero… assim foi.

Dirigimo-nos primeiro a Maras onde iríamos ver umas salinas a aproximadamente 4000 metros de altitude, cuja exploração é pré-inca. As salinas de Maras (S/. 5.00) correspondem a um enorme aglomerado de pequenos currais de socalcos ao longo da encosta da montanha, todos ligados por pequenos canais de irrigação provenientes de uma nascente e água quente com caudal diminuto. A exploração dos currais é feita de forma artesanal pelas famílias do aglomerado populacional de Maras, possuindo cada uma entre 1 a 3 currais. Depois de retirado o sal este é vendido a uma cooperativa para posterior tratamento com iodo, para poder ser consumido.

O processo de obtenção do sal baseia-se na evaporação da água proveniente da nascente que, derivado da sua temperatura elevada, ascende ao topo da montanha dissolvendo pelo caminho os minerais das rochas. O que as pessoas fazem é reter a água em currais para que esta evapore ficando apenas o sal. Este processo dura aproximadamente 1 mês e corresponde a 4 ciclos de enchimento e evaporação de cada curral. No final extrai-se o sal para começar novo ciclo. Daqui resultam 3 tipos de sal: o sal de terceira categoria, utilizado na alimentação dos animais, que está em contacto com o solo apresentando por isso uma cor acastanhada; o sal primeira, de cor branca existente na camada superior ao do de 3ª e o sal extra, mais claro que corresponde à camada superficial.

[08.007]_Salinas_de_Maras [08.008]_Salinas_de_Maras
Salinas de Maras

Para analisarmos a temperatura e o teor em sal da água da nascente o nosso guia disse-nos para colocarmos um dedo na água e esperarmos que esta evaporasse. Ao fim de alguns minutos os nossos dedos estavam brancos, cheios de pequenos grãos de sal.

No fim provámos alguns frutos secos, salgados com o sal das salinas e comprámos uns pequenos saquitos de sal.

Seguimos então para o aglomerado de Maras onde apesar da insistência do nosso guia para demonstrar que as senhoras de chapéu de coco branco correspondiam claramente, pela expressão facial, a pessoas de origem mestiça, nós sem o teste de ADN não as distinguiríamos dos restantes peruanos. Maras é uma população muito influenciada pela chegada dos espanhóis apresentando muitas das casas ombreiras muito trabalhadas, com cenas da bíblia.

[08.024]_A_Caminho_da_Vila_de_Maras [08.025]_A_Caminho_da_Vila_de_Maras
A caminho de Maras

Já com duas Inca Colas no bucho o nosso guia levou-nos a Moray. Moray corresponde a um complexo de andenerias circulares, pensando-se ter funcionado como laboratório de experimentação agrícola. Existem no local 3 estruturas independentes cuja localização retrata outros tantos climas base: uma profunda e abrigada do vento, representando climas tropicais e secos; uma pouco profunda, mais elevada e bastante exposta às condições atmosféricas; e uma a meio termo. Note-se ainda que à medida que se vai descendo um patamar a temperatura no seguinte será de aproximadamente um grau superior. Em pouco espaço podiam ser estudadas quais as plantas que se dariam melhor em cada uma das situações, passando a aplicar-se o seu cultivo nos locais do império com condições semelhantes. Pensa-se também que o facto de existirem entre 500 a 700 espécies de milho e entre 4000 e 6000 de batatas no Peru se deve às experiências realizadas em locais como este.

[08.033]_Moray [08.034]_Moray [08.035]_Moray 
Os 3 laboratórios de Moray: Clima quente e seco (esq.), Locais mais expostos ao frio e vento (centro) e Clima intermédio (dir.).

Embora a ideia não tivesse agradado muito ao nosso motorista, este deu-nos alguns minutos para descer até ao fundo da estrutura principal.

As três estruturas encontram-se actualmente em fase de reconstrução e restauro.

Para terminar o tour fomos para Chinchero, uma população Inca totalmente subjugada pelos colonizadores, tendo sido destruídos todos os templos e proibidas a manifestações culturais. Actualmente existe uma igreja construída sobre um antigo templo tal como a igreja de São Domingo sobre o templo de Qorikancha em Cusco. Nada melhor que utilizar como fundações os legos perfeitos dos Incas, verifica-se até que os muros circundantes e fundações (de construção Inca) estão em muito melhor estado que a parte superior da Igreja (de construção colonial). A proteger a Igreja encontra-se uma imponente muralha Inca e no exterior desta as habituais andenerias. Na praça local decorria a Missa de Corpus Christi, a festa principal de Cusco, e nas ruas havia clima de festa.

[08.059]_Chinchero_Igreja_Colonial[08.051]_Chinchero_Muros_Incas[08.053]_Chinchero_Andenerias 
Chinchero: Torre da Igreja (esq.), Muro de proteccção (centro) e Andenerias (dir.)

Seguimos finalmente para Cusco a fim de participar nas festividades e aproveitar para arranjar mais alguns furinhos nos nossos boletos turísticos, actividade esta que acabou por ter de ser deixada para o dia seguinte pois, como era feriado, estava tudo fechado.